PALAVRAS GASTAS


Thursday, May 14, 2009
De volta.


Há sempre um ritmo para a nossa direção. Para todas as chegadas e partidas, para todas as palavras ditas. Eu estou de volta às ruas que conheço, às ruas que nunca me levaram a lugar nenhum, além daqui. Ah, não deixe o tempo te enganar, eu nunca consegui, uma vez sequer, conquistá-lo. Ele está mais lento com as noites mais compridas. Eu espero o ano afundar. Matando o tempo, matando a esperança. As tarifas do  transporte coletivo crescem mais rápido do que minha paciência. Novas palavras para antigos desejos e um novo nome para todas as coisas. Um suspiro para o sossego e uma coletânea de canções sobre estranhos e delicados momentos - esquecidos e perdidos. Vividos aqui.



 

Posted at 04:11 by Y.
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Wednesday, March 25, 2009
Ponto final.



Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão recua. Escreva, sob a fraca luz branca do ônibus, a sua lista de "Eu quis dizer", recolha todas as suas cordas as quais você costumava amarrar suas dúvidas e enterre-as em algum ponto das duas horas de estrada que nos distanciavam. Uma história deixada para dissolver lá fora. Com a chuva.



para 2007...

Posted at 03:56 by Y.
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Thursday, October 30, 2008
Deixado de lado

- E você, por que tanta preocupação?

(Porque eu já não sei mais como sair desse labirinto de sensações e só o que me resta é um constante inferno do jeito que tudo anda.  Um mundo de incertezas. Há algo nesses seus olhos multicoloridos que me deixa agitado por dentro. Uma inquietação anormal. Então eu me preocupo com o depois, porque o agora já não consigo aproveitar direito e por mais que você esteja perto demais, sempre me parece muito distante da onde eu gostaria que estivesse. Ou provavelmente eu me preocupe só com o fato de que, talvez, nunca iremos além do ponto que estamos agora.)

 

- Ah, é só curiosidade.




Posted at 03:02 by Y.
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Sunday, September 14, 2008
A flecha do tempo



Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados de TV, rodas de samba e bloqueios de rua. 29 anos planejando devorar todas as estradas possíveis, e enfrentar todos obstáculos impossíveis. Uma última lembrança: a divisão de uma porção de batata frita, todas as idas e vindas do hospital e as entregas de móveis nos domingos. E mesmo indo, fica e inspira. Suas mudanças de humor, de mobílias e sociais. Eu achei que tivéssemos mais tempo, mas acontece assim, sem critério, sem uma estrutura narrativa, sem um enredo, sem uma explicação. E no cardápio, desistir nunca foi uma opção.



Em lembrança ao camarada Alex Marchi  (1979 - 2008) 

Posted at 23:41 by Y.
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Thursday, August 21, 2008
um pouco sobre pedalar

Demorei um pouco para aprender a pedalar numa bicicleta sem as rodinhas de trás, eu tinha 7 anos e me recordo facilmente dos meus primeiros 100 metros livres delas. No dia, a seleção brasileira de futebol goleava a da Bolívia por 6x0, era inverno e pralém do frescor que fazia, aquela sensação de um vazio gélido no estômago ainda tomava conta de mim enquanto eu descia lentamente e pedia pro meu pai me empurrar denovo, porque não acreditava no que tava conseguindo. Que finalmente estava me livrando daquele ingênuo peso e agora eu era um molequinho liberto pra pedalar sozinho ou em coletivo com meus amigos. Cinco anos mais tarde eu aprendia a pedalar sem as mãos e guiava meu navio com maior naturalidade.

 

            Com um maior domínio sobre meu destino em cima de uma bicicleta os horizontes foram se expandindo e as distâncias pedaladas também. A navegação pela geografia da ilha sempre foi por trajetos desafiadores, dado a quantidade de colinas, morros, densa vegetação e da existência de duas Vias-Expressas que levam da região central até as praias do norte e do sul da cidade. Com isso, o uso da bicicleta se tornava diário para transitar no bairro e especial para os fins-de-semana, principalmente desbravar praias desconhecidas e solitárias.

 

Um ano e meio depois da invasão bárbara de Washington ao Afeganistão, cerca de 2 mil pessoas iam às ruas em Florianópolis em repúdio explícito a política externa de caráter imperial do governo dos Estados Unidos. Dessa vez, o Iraque era a vitima. Eu me encontrava no meio da massa caminhando, carregando meu veículo de duas rodas, ao redor de mais ou menos 40 ciclistas que já tinham pedalado algumas horas e agora davam aquela relaxada. Era manhã de um sábado fresco e ensolarado, Bush ardia em chamas, bandeiras da Palestina eram arqueadas, Shemag's enrolados envolta de pescoços e eu estava me sentindo muito bem com aquilo tudo ocorrendo.



 

A pedalada, anteriormente, costurou as ruas do centro trazendo panfletos e ciclistas com máscaras anti-poeira atraindo a atenção por onde quer que passasse. A alta velocidade, o barulho enlouquecedor de motores e buzinas, a fumaça dos canos-de-descarga, os atropelamentos e acidentes genocidas não eram o centro de toda nossa movimentação, apesar de invariavelmente ter nos deparado com alguns desses fatores. Nossos corpos eram nossas máquinas, nossa transpiração era nossa fumaça, retomávamos as ruas, nos divertíamos e reclamávamos espaço para todos e todas. Estabelecendo a rua como um lugar verdadeiramente público e de acesso irrestrito. Reclamando a bicicleta como um meio de deslocamento e criticando a produção e o consumo de carros e gasolina como um estupro às nossas vidas. Econômica, social, cultural, política e ecologicamente. 

 

A Massa Crítica, surgida no começo da década de noventa em San Francisco, como ação direta coletiva pelo apoio ao uso da bicicleta como meio de transporte e como crítica a toda uma sociedade ocidental voltada diretamente para o deus-carro, iniciou suas atividades por volta de 2002 em Florianópolis e tomou ativamente as ruas da ilha da Revolta durante 3 anos seguidos. Suas ações, juntamente com a atuação do Movimento Passe Livre, suscitaram e colaboraram de forma enfática para pôr em pauta na vida cotidiana da cidade reflexões sobre mobilidade urbana e o desenvolvimento suicida e opressor das cidades.


Com o nascer de 2007 um grupo de pessoas resolveu retomar o espírito do projeto e a Bicicletada ou Massa Crítica, como queiram, voltou à ativa. Dessa vez com um espaço de intervenção maior do que antigamente devido uma nova conjuntura política local e nacional. O sistema de transporte público e a malha viária da cidade estão obsoletos, simplesmente não correspondem mais as demandas daqueles e daquelas que vivem aqui, é tempo de mudar a lógica violentadora do lucro para a lógica da vida. E para isso é necessário pensarmos a cidade como um espaço de transformação, pensarmos em direito à cidade, direito à transformar a cidade com suas próprias mãos buscando algo que seja para todo mundo,  o bem-comum.

 

Para aqueles e aquelas que ainda não desistiram de ser uma pedra no sapato (e agora não querem só resistir, mas querem propor e atacar),


Em memória de Rodrigo Machado Lucianetti.



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Plays Pretty for Baby
By The Nation of Ulysses



Posted at 04:20 by Y.
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Thursday, July 31, 2008
entre delírios e cálculos OU a possibilidade das impossibilidades

Talvez possa ser por essa frase que eu deva começar, pela conclusão de que tudo o que passou até aqui, até agora, esse momento, foi muito e eu não parei pra sentir que foi esse montante de verdade, mas isso é porque nunca dizem nada pra você a não ser que seja para discordar e você nunca para pra pensar no que faz. É isso aí, mesmo. Dizem pra se afastar porque você é um louco ou por causa dessa sua cara feia. Pois lhe digo que tenho uma cara feia, mas sei muito bem que ela é uma cara expressiva, uma cara viva. Aprender a conviver na solidão é quase como mágica, quase como você transformar no seu dia-a-dia a água em vinho. Mas tudo o que passou foi pouco para o que eu quero.


Todas as milhas percorridas, todas as ruas pisadas, todas as poucas vidas abraçadas, todos os livros devorados, as palavras escritas, o que eu perdi, o que eu ganhei, as cidades que passei, impreterivelmente já não me preenchem mais. Eu já não consumo direito o meu passado e as memórias me impulsionam para a criação de um novo passado. Percebo que pertenço a todos os lugares, pois a todos os lugares não farei falta. Sei que todo lugar tem seu céu, e o melhor céu é sempre aquele em que eu me encontro no presente momento, mas a mudança de ares se torna necessário se você sabe que já está esgotado.


 Você pensa no descontrole como um artífice de recuperação da experiência vivida, recuperação da perda da experiência dos sentidos, da perda do seu conhecimento pela sua própria vida: pois você não sente mais o trajeto, não reconhece onde vive, não sabe os ingredientes dos alimentos que come, não conhece o processo de produção daquilo que consome e se sente fraco e impotente. Encaixa os pontos e anexa o pensamento de como a história dos tempos atuais é definida através da liberação do indivíduo, sim, da libertação do indivíduo para o consumo, amplia o seu espaço e a oportunidade para comprar e ser vendido, anexa ainda o fato de que a história do chamado "livre mercado", ou melhor dizendo, a história da ascensão das corporações foi escrita com choques, numa espécie de cruzada contemporânea para libertar os mercados mundiais, como se essa fosse a liberdade do ser humano. Reduzidos à fragmentos dominados à sangue e fogo.



 

Estar só revela o tédio, mas não diminui a paixão, você acaba sendo mais forte do que isso ao olhar pra trás, consegue perceber que tende de uma maneira ou outra, a ser mais forte do que suas incontroláveis emoções que surgem pra te derrubar. Ao mesmo tempo quando olha para o agora sente que muitas vezes se desarma e perde o controle do navio, vê que o provável é que isso seja culpa do tempo ou da falta dele, eu mesma não sei. É culpa das incertezas que o futuro guarda hermeticamente fechadas e cozinhando em fogo baixo, culpa de se esquecer de você mesma, esquecer das suas vontades e loucuras.


Convive no limiar entre a intensidade dos delírios e a meticulosidade dos cálculos organizativos, agora decide navegar em alto mar e trabalhar com uma opção de futuro, uma opção fragmentada de saber lidar com expectativas e oportunidades, talvez assim eu não enlouqueça aterrorizadamente e a opção de escrever mais uma página na História surja concretamente como uma hipótese. A única certeza que tenho é da existência de possibilidades, até da possibilidade do impossível. Mas senão tentar, nem o fracasso eu consigo.


 O tempo já está mudando, a contagem se dá por passos como num jogo de xadrez, me pergunto quanto tempo vai durar pra dar cada passo, quantas fileiras vou avançar, quantas vou recuar, quais peças vou perder e se devo arriscar a audácia de um bispo ou a cautela de uma dama. Me pego denovo em cálculos tortos e imprecisos, o resultado nunca bate com a hipótese. Recalcular, recontar, ver outra medida, criar novo instrumento e tentar denovo e denovo e denovo. Lido com um horizonte onde urge a possibilidade de nascer aí um ponto de inflexão, mas lido de forma a dissolver e convergir o pensamento em um só rio, quando o sim e o não se encontram e não há derrotas ou conquistas, mas um pouco de cada sem definição, onde o que existe é o diálogo e não a simples oposição, onde as possibilidades de misérias e prazeres aumentam quanto mais se arrisca.



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Meditations
By John Coltrane



Posted at 21:52 by Y.
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Monday, July 28, 2008
um pouco da cidade

ir aos jogos na Ressacada; almoçar nas Taiwanesas; tomar café no Central; caminhar na Felipe Schimidt; ir ao Campeche no verão; na Barra quando tem paciência e na Lagoa pra ver as amizades. quando aumentam a tarifa: bloquear ruas e ocupar prédios - se reunir na Visconde; pedalar na vizinhança; rachar com o vento sul; dois ônibus para qualquer lugar; 5 minutos até o ponto; consumir o tempo na livraria; empanada de legumes na galeria; ar puro na Trompowiski; show no Casarão; Japonês no Pantanal; de madrugada: pastel no supermercado; sebos na João Pinto e açaí em Canas. 



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L.A. Explosion
By The Last



Posted at 04:35 by Y.
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Monday, July 21, 2008
escreve pra organizar

a briga entre o tédio e o cansaço: o nada-pra-fazer contra o nada-querer-fazer. saber conviver com o limite do corpo, poder aguentar a falta de ar. ter paciência pra andar de ônibus, acabar o ano, revelar o filme e receber em troca. saber gostar: de pedalar, caminhar e cozinhar. arranjar tempo pra três livros ao mesmo momento. anotar pra recordar, lembrar de ler, anotar pra organizar. complexificar, recortar e simplificar. ter que lidar com a diferença de humor - ora tenso, ora delicado. transborda ansiedade - perde as palavras, gagueja e trava. reproduz o espaço em imagens, mede o tempo pelas músicas que ouve. abole o sono, desenha mapas, carrega a bagagem e busca algo que seja para todo mundo.




 


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End Hits
By Fugazi



Posted at 04:38 by Y.
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Saturday, July 05, 2008
dois pontos sobre dominação - intro

A única liberdade que existe concretamente, é a liberdade de consumo

A história do livre mercado contemporâneo – melhor compreendida como a ascensão das corporações – foi escrita com choques. Uma cruzada insana de injeção de adrenalina nas atividades de especulação financeira e impulsos elétricos para o funcionamento máximo da economia global, através da liberação dos mercados mundiais.

A desigualdade é mantida através de descargas de choque elétrico

Primeiro choque:
a nação é violentada (por uma guerra, um ataque, golpes de Estado ou desastres naturais - Para enfrentar grandes catástofres, enquanto alguns estocam alimentos e água, os capitalistas estocam idéias em defesa do livre mercado
). Segundo choque: as corporações e os políticos exploram o medo e a desorientação do primeiro impacto e implementam um choque econômico (eliminação da esfera pública, total liberdade para as corporações e gasto social mínimo). Terceiro choque: para aquelas pessoas que resistem ao segundo, surge o choque militar. Ação através da polícia e de soldados.


           





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Double Nickels on the Dime
By Minutemen



Posted at 04:50 by Y.
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Thursday, March 20, 2008
em março

Cada olhar me remete a um tumulto que brota do embate entre o que foi e o que está sendo. Onde todas as distâncias se parecem menores agora e a possibilidade de viver uma nova história em uma velha cidade urge numa virada de esquina. Lembro dos tempos em que tudo parecia muito grande e distante assim como minhas memórias daqueles dias. Agora, a beleza dessa cidade se apresenta marcada pela conversa entre morros e prédios, no encontro do asfalto e meus pensamentos; na mistura esquizofrênica de minhas lembranças vivas com as construções da minha imaginação. O presente é tomado de assalto pela irrefutável força de transformação do tempo - o prédio grudado na praça está fadado ao apodrecimento e a escola perto da igreja foi pintada. Aquilo que foi vivido se mostra, nesse exato momento, como um sonho ou um livro incorporado. Algo que nunca me aconteceu.

Mas as minhas palavras são provas do que vivi e do que estou vivendo. Minhas idéias são produto de pensamentos que sacodem meu mundo. Falar, é agir e pensar simultaneamente. É criar. Criar um mundo sobre nossos braços, onde milhares de velhos sonhos são aquecidos dia após dia sobre o calor de nossas vontades e desejos. Busco um sentido nas estações e acho padrões em grandes pensamentos.

Cada olhar, uma imagem; a representação de um relato fragmentado, habitado cada dia mais por esquecimentos do que por lembranças. Cada relance é insubstituível. Manufaturamos realidades e recordamos o perdido em fotografias, na separação do tempo vivido.



 




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The Skinny Elvis
By Big Boys



Posted at 16:35 by Y.
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Nome: Y.

Local: Florianópolis

escreve pra poder esquecer


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