Mais uma vez eu me pego preso nos impossíveis cruzamentos entre me pôr em parênteses ou não. Há dias que passam por mim como cavalos ensandecidos e eu não consigo contê-los. O eterno binômio de perdas e ganhos se confunde com todos os detalhes que eu posso encontrar entre as sílabas pronunciadas e os seus lábios. Então eu mergulho perdido entre o leste da minha juventude e o oeste do meu futuro, vendo todas as calçadas sombrias e sonolentas me guiarem para largas e vazias estradas suburbanas. Todos os passageiros dormem em desgastados corredores de escassos meios de locomoção e anseiam por uma cama ou uma casa, nem que seja o próprio ponto de ônibus. Enquanto um ar quente denso sopra pela única plataforma dessa pequena-grande cidade, diversas multidões de jovens urbanos aguardam a vez para engolir rápidas vias de decadentes destinos. Um mapa para o meu exílio com um céu indecifrável, algumas mitologias escritas sobre o mesmo declive que leva a enormes castelos da mente e uma eterna leve sensação de vertigem.
Não consigo contar quantas vezes você troca o anel de dedo em uma tarde. Do indicador direito pro anular esquerdo, numa freqüência incansável, em tempos cansativos. E escrito densamente, com letras minúsculas, se encontram nomes, números e palavras dentro de caixas de cigarros nunca fumados. Achadas nos cantos das esquinas em ruínas. Os maços de papel são sua própria memória. Todos nós carregamos essas coisas por dentro, coisas que nunca ninguém consegue perceber. Elas nos seguram como âncoras, elas nos jogam mar adentro. Estocamos alimentos e água para enfrentar a escassez, eles estocam idéias para lucrar. Um check point por um pão com margarina pela manhã, um colete e uma coragem para sair depois das três.
Na esteira do tempo, a cidade avança sobre a cidade; na colheita dos bens, eles avançam sobre o petróleo. Colecionamos os jornais das últimas semanas no chão da sala-de-estar - rumores e as eleições, palavras cruzadas e uma guerra interminável – eles sujam nossos dedos e pesam nossos pensamentos. Vamos deixar nosso péssimo dia aqui de lado, querida, e fazer de conta que somos fortes ou talvez contar pequenas estórias e piadas ruins sobre nossos vizinhos.
Tudo isso para dizer que, nós estamos superando o olho do furacão, mesmo com as luzes piscando. Logo estaremos sem energia, mas estaremos bem alimentados. E nós teremos assistido o canal do tempo mais do que deveria ser permitido em um período de 24 horas.
Mais uma noite qualquer de um domingo para esquecer. Deixa o tempo morrer no chão da sala, contando caixas e malas. Se perde entre preços e opções, a vontade não é compatível com o possível. O aluguel é tão caro: precisa escolher entre esse quarto e o desespero. As horas perdem sua elasticidade, você conta os segundos dos minutos e decora o alfabeto de trás para frente. Todo ano se repete: o prefeito pinta as ruas de preto e finge que é asfalto; o vento sul rasga em qualquer estação; verão com enchente; inverno doente.
Você não consegue salvar dinheiro ou convicção e aquelas músicas amargas ouvidas todas as manhãs não vão melhorar em nada a sua situação. Deixar se amarrar em toda essa teia de perdas não irá abrir ruas de saída. Todo aquele esforço de cultivo da paciência vai por água abaixo e já passam das 4. Agora você conta as rachaduras da parede amarela pintada com as próprias mãos no último outono e percebe, numa caixa isolada, o que poderia ter te matado ao longo dos anos: um cartucho de bala, um copo quebrado, uma mangueira furada, um anel de casado e um sono surpresa.
Há sempre um ritmo para a nossa direção. Para todas as chegadas e partidas, para todas as palavras ditas. Eu estou de volta às ruas que conheço, às ruas que nunca me levaram a lugar nenhum, além daqui. Ah, não deixe o tempo te enganar, eu nunca consegui, uma vez sequer, conquistá-lo. Ele está mais lento com as noites mais compridas. Eu espero o ano afundar. Matando o tempo, matando a esperança. As tarifas do transporte coletivo crescem mais rápido do que minha paciência. Novas palavras para antigos desejos e um novo nome para todas as coisas. Um suspiro para o sossego e uma coletânea de canções sobre estranhos e delicados momentos - esquecidos e perdidos. Vividos aqui.
Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão recua. Escreva, sob a fraca luz branca do ônibus, a sua lista de "Eu quis dizer", recolha todas as suas cordas as quais você costumava amarrar suas dúvidas e enterre-as em algum ponto das duas horas de estrada que nos distanciavam. Uma história deixada para dissolver lá fora. Com a chuva.
(Porque eu já não sei mais como sair desse labirinto de sensações e só o que me resta é um constante inferno do jeito que tudo anda. Um mundo de incertezas. Há algo nesses seus olhos multicoloridos que me deixa agitado por dentro. Uma inquietação anormal. Então eu me preocupo com o depois, porque o agora já não consigo aproveitar direito e por mais que você esteja perto demais, sempre me parece muito distante da onde eu gostaria que estivesse. Ou provavelmente eu me preocupe só com o fato de que, talvez, nunca iremos além do ponto que estamos agora.)
Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados de TV, rodas de samba e bloqueios de rua. 29 anos planejando devorar todas as estradas possíveis, e enfrentar todos obstáculos impossíveis. Uma última lembrança: a divisão de uma porção de batata frita, todas as idas e vindas do hospital e as entregas de móveis nos domingos. E mesmo indo, fica e inspira. Suas mudanças de humor, de mobílias e sociais. Eu achei que tivéssemos mais tempo, mas acontece assim, sem critério, sem uma estrutura narrativa, sem um enredo, sem uma explicação. E no cardápio, desistir nunca foi uma opção.
Em lembrança ao camarada Alex Marchi (1979 - 2008)
Cada olhar me remete a um tumulto que brota do embate entre o que foi e o que está sendo. Onde todas as distâncias se parecem menores agora e a possibilidade de viver uma nova história em uma velha cidade urge numa virada de esquina. Lembro dos tempos em que tudo parecia muito grande e distante assim como minhas memórias daqueles dias. Agora, a beleza dessa cidade se apresenta marcada pela conversa entre morros e prédios, no encontro do asfalto e meus pensamentos; na mistura esquizofrênica de minhas lembranças vivas com as construções da minha imaginação. O presente é tomado de assalto pela irrefutável força de transformação do tempo - o prédio grudado na praça está fadado ao apodrecimento e a escola perto da igreja foi pintada. Aquilo que foi vivido se mostra, nesse exato momento, como um sonho ou um livro incorporado. Algo que nunca me aconteceu.
Mas as minhas palavras são provas do que vivi e do que estou vivendo. Minhas idéias são produto de pensamentos que sacodem meu mundo. Falar, é agir e pensar simultaneamente. É criar. Criar um mundo sobre nossos braços, onde milhares de velhos sonhos são aquecidos dia após dia sobre o calor de nossas vontades e desejos. Busco um sentido nas estações e acho padrões em grandes pensamentos.
Cada olhar, uma imagem; a representação de um relato fragmentado, habitado cada dia mais por esquecimentos do que por lembranças. Cada relance é insubstituível. Manufaturamos realidades e recordamos o perdido em fotografias, na separação do tempo vivido.
ir aos jogos na Ressacada; almoçar nas Taiwanesas; tomar café no Central; caminhar na Felipe Schimidt; ir ao Campeche no verão; na Barra quando tem paciência e na Lagoa pra ver as amizades. quando aumentam a tarifa: bloquear ruas e ocupar prédios - se reunir na Visconde; pedalar na vizinhança; rachar com o vento sul; dois ônibus para qualquer lugar; 5 minutos até o ponto; consumir o tempo na livraria; empanada de legumes na galeria; ar puro na Trompowiski; show no Casarão; Japonês no Pantanal; de madrugada: pastel no supermercado; sebos na João Pinto e açaí em Canas.
a briga entre o tédio e o cansaço: o nada-pra-fazer contra o nada-querer-fazer. saber conviver com o limite do corpo, poder aguentar a falta de ar. ter paciência pra andar de ônibus, acabar o ano, revelar o filme e receber em troca. saber gostar: de pedalar, caminhar e cozinhar. arranjar tempo pra três livros ao mesmo momento. anotar pra recordar, lembrar de ler, anotar pra organizar. complexificar, recortar e simplificar. ter que lidar com a diferença de humor - ora tenso, ora delicado. transborda ansiedade - perde as palavras, gagueja e trava. reproduz o espaço em imagens, mede o tempo pelas músicas que ouve. abole o sono, desenha mapas, carrega a bagagem e busca algo que seja para todo mundo.