Entry: entre delírios e cálculos OU a possibilidade das impossibilidades Thursday, July 31, 2008



Talvez possa ser por essa frase que eu deva começar, pela conclusão de que tudo o que passou até aqui, até agora, esse momento, foi muito e eu não parei pra sentir que foi esse montante de verdade, mas isso é porque nunca dizem nada pra você a não ser que seja para discordar e você nunca para pra pensar no que faz. É isso aí, mesmo. Dizem pra se afastar porque você é um louco ou por causa dessa sua cara feia. Pois lhe digo que tenho uma cara feia, mas sei muito bem que ela é uma cara expressiva, uma cara viva. Aprender a conviver na solidão é quase como mágica, quase como você transformar no seu dia-a-dia a água em vinho. Mas tudo o que passou foi pouco para o que eu quero.


Todas as milhas percorridas, todas as ruas pisadas, todas as poucas vidas abraçadas, todos os livros devorados, as palavras escritas, o que eu perdi, o que eu ganhei, as cidades que passei, impreterivelmente já não me preenchem mais. Eu já não consumo direito o meu passado e as memórias me impulsionam para a criação de um novo passado. Percebo que pertenço a todos os lugares, pois a todos os lugares não farei falta. Sei que todo lugar tem seu céu, e o melhor céu é sempre aquele em que eu me encontro no presente momento, mas a mudança de ares se torna necessário se você sabe que já está esgotado.


 Você pensa no descontrole como um artífice de recuperação da experiência vivida, recuperação da perda da experiência dos sentidos, da perda do seu conhecimento pela sua própria vida: pois você não sente mais o trajeto, não reconhece onde vive, não sabe os ingredientes dos alimentos que come, não conhece o processo de produção daquilo que consome e se sente fraco e impotente. Encaixa os pontos e anexa o pensamento de como a história dos tempos atuais é definida através da liberação do indivíduo, sim, da libertação do indivíduo para o consumo, amplia o seu espaço e a oportunidade para comprar e ser vendido, anexa ainda o fato de que a história do chamado "livre mercado", ou melhor dizendo, a história da ascensão das corporações foi escrita com choques, numa espécie de cruzada contemporânea para libertar os mercados mundiais, como se essa fosse a liberdade do ser humano. Reduzidos à fragmentos dominados à sangue e fogo.



 

Estar só revela o tédio, mas não diminui a paixão, você acaba sendo mais forte do que isso ao olhar pra trás, consegue perceber que tende de uma maneira ou outra, a ser mais forte do que suas incontroláveis emoções que surgem pra te derrubar. Ao mesmo tempo quando olha para o agora sente que muitas vezes se desarma e perde o controle do navio, vê que o provável é que isso seja culpa do tempo ou da falta dele, eu mesma não sei. É culpa das incertezas que o futuro guarda hermeticamente fechadas e cozinhando em fogo baixo, culpa de se esquecer de você mesma, esquecer das suas vontades e loucuras.


Convive no limiar entre a intensidade dos delírios e a meticulosidade dos cálculos organizativos, agora decide navegar em alto mar e trabalhar com uma opção de futuro, uma opção fragmentada de saber lidar com expectativas e oportunidades, talvez assim eu não enlouqueça aterrorizadamente e a opção de escrever mais uma página na História surja concretamente como uma hipótese. A única certeza que tenho é da existência de possibilidades, até da possibilidade do impossível. Mas senão tentar, nem o fracasso eu consigo.


 O tempo já está mudando, a contagem se dá por passos como num jogo de xadrez, me pergunto quanto tempo vai durar pra dar cada passo, quantas fileiras vou avançar, quantas vou recuar, quais peças vou perder e se devo arriscar a audácia de um bispo ou a cautela de uma dama. Me pego denovo em cálculos tortos e imprecisos, o resultado nunca bate com a hipótese. Recalcular, recontar, ver outra medida, criar novo instrumento e tentar denovo e denovo e denovo. Lido com um horizonte onde urge a possibilidade de nascer aí um ponto de inflexão, mas lido de forma a dissolver e convergir o pensamento em um só rio, quando o sim e o não se encontram e não há derrotas ou conquistas, mas um pouco de cada sem definição, onde o que existe é o diálogo e não a simples oposição, onde as possibilidades de misérias e prazeres aumentam quanto mais se arrisca.

   2 comments

ori
August 14, 2008   12:22 PM PDT
 
e viva o reino da utopia, de onde somos praticamente escravos
juliana m.
September 4, 2008   09:42 PM PDT
 
senti empatia de aflições e adorei o texto quase sem respiro.
e agradeço a visita para poder descobrir seus escritos. :)

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