Entry: um pouco sobre pedalar Thursday, August 21, 2008



Demorei um pouco para aprender a pedalar numa bicicleta sem as rodinhas de trás, eu tinha 7 anos e me recordo facilmente dos meus primeiros 100 metros livres delas. No dia, a seleção brasileira de futebol goleava a da Bolívia por 6x0, era inverno e pralém do frescor que fazia, aquela sensação de um vazio gélido no estômago ainda tomava conta de mim enquanto eu descia lentamente e pedia pro meu pai me empurrar denovo, porque não acreditava no que tava conseguindo. Que finalmente estava me livrando daquele ingênuo peso e agora eu era um molequinho liberto pra pedalar sozinho ou em coletivo com meus amigos. Cinco anos mais tarde eu aprendia a pedalar sem as mãos e guiava meu navio com maior naturalidade.

 

            Com um maior domínio sobre meu destino em cima de uma bicicleta os horizontes foram se expandindo e as distâncias pedaladas também. A navegação pela geografia da ilha sempre foi por trajetos desafiadores, dado a quantidade de colinas, morros, densa vegetação e da existência de duas Vias-Expressas que levam da região central até as praias do norte e do sul da cidade. Com isso, o uso da bicicleta se tornava diário para transitar no bairro e especial para os fins-de-semana, principalmente desbravar praias desconhecidas e solitárias.

 

Um ano e meio depois da invasão bárbara de Washington ao Afeganistão, cerca de 2 mil pessoas iam às ruas em Florianópolis em repúdio explícito a política externa de caráter imperial do governo dos Estados Unidos. Dessa vez, o Iraque era a vitima. Eu me encontrava no meio da massa caminhando, carregando meu veículo de duas rodas, ao redor de mais ou menos 40 ciclistas que já tinham pedalado algumas horas e agora davam aquela relaxada. Era manhã de um sábado fresco e ensolarado, Bush ardia em chamas, bandeiras da Palestina eram arqueadas, Shemag's enrolados envolta de pescoços e eu estava me sentindo muito bem com aquilo tudo ocorrendo.



 

A pedalada, anteriormente, costurou as ruas do centro trazendo panfletos e ciclistas com máscaras anti-poeira atraindo a atenção por onde quer que passasse. A alta velocidade, o barulho enlouquecedor de motores e buzinas, a fumaça dos canos-de-descarga, os atropelamentos e acidentes genocidas não eram o centro de toda nossa movimentação, apesar de invariavelmente ter nos deparado com alguns desses fatores. Nossos corpos eram nossas máquinas, nossa transpiração era nossa fumaça, retomávamos as ruas, nos divertíamos e reclamávamos espaço para todos e todas. Estabelecendo a rua como um lugar verdadeiramente público e de acesso irrestrito. Reclamando a bicicleta como um meio de deslocamento e criticando a produção e o consumo de carros e gasolina como um estupro às nossas vidas. Econômica, social, cultural, política e ecologicamente. 

 

A Massa Crítica, surgida no começo da década de noventa em San Francisco, como ação direta coletiva pelo apoio ao uso da bicicleta como meio de transporte e como crítica a toda uma sociedade ocidental voltada diretamente para o deus-carro, iniciou suas atividades por volta de 2002 em Florianópolis e tomou ativamente as ruas da ilha da Revolta durante 3 anos seguidos. Suas ações, juntamente com a atuação do Movimento Passe Livre, suscitaram e colaboraram de forma enfática para pôr em pauta na vida cotidiana da cidade reflexões sobre mobilidade urbana e o desenvolvimento suicida e opressor das cidades.


Com o nascer de 2007 um grupo de pessoas resolveu retomar o espírito do projeto e a Bicicletada ou Massa Crítica, como queiram, voltou à ativa. Dessa vez com um espaço de intervenção maior do que antigamente devido uma nova conjuntura política local e nacional. O sistema de transporte público e a malha viária da cidade estão obsoletos, simplesmente não correspondem mais as demandas daqueles e daquelas que vivem aqui, é tempo de mudar a lógica violentadora do lucro para a lógica da vida. E para isso é necessário pensarmos a cidade como um espaço de transformação, pensarmos em direito à cidade, direito à transformar a cidade com suas próprias mãos buscando algo que seja para todo mundo,  o bem-comum.

 

Para aqueles e aquelas que ainda não desistiram de ser uma pedra no sapato (e agora não querem só resistir, mas querem propor e atacar),


Em memória de Rodrigo Machado Lucianetti.

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